
Estava muito vento, frio e chuva no dia em que me apanharam. Ia sem rumo, estrada afora, em busca de comida. A minha mãe tinha deixado de respirar e estava gelada.
Não se mexia. Chamei-a por várias vezes, mas teimava em não acordar.
Esperei dias e dias até que já não aguentando a fome e a sede, tive de afastar-me e aventurar-me por algo que saciasse a sede e calasse a fome.
Ouvi carros, muitos carros e buzinas com sons estridentes. Pessoas berravam, zangadas, mas custava-me muito manter-me em pé, quanto mais correr…
Sinto alguém a meu lado. Pegam-me e deixo de ouvir toda aquela confusão. Vou deitada e embrulhada no casaco que cheira muito bem. Tenho medo pois não sei onde estou.
Ouço uma voz a falar. Falam de mim. Estão nervosos, posso senti-lo.
O carro parou e pegam novamente em mim.
Ouço uma segunda voz. Pegam-me de novo, e sinto movimento, muito movimento em meu redor.
À voz inicial juntam-se outras, aflitas e muito ansiosas. Deitam-me num cobertor fofinho e sinto quentinho debaixo de mim. Adormeço…
Acordo, ouço outra vez vozes e choro! Falam acerca de mim, que o melhor seria eu não viver. A primeira voz já não está, mas a segunda chora enquanto me dá mimos.
O senhor que falava em morte, pega em mim e começa a mexer, a tocar e a analisar-me. Diz que estou muito mal.
Outra vez a questão da morte. A segunda voz pega novamente em mim e diz um sonoro NÃO!
Hoje já tenho 2 anos, quase três e cresci muito desde aquele dia.
A segunda voz é da minha “dona”. Ensinou-me a comer, a brincar, a viver e a lutar. Sei que estive 9 meses a recuperar. Mas valeu a pena, pois sou muito feliz!
Continuo a não gostar muito de ir ao médico, não por ele, mas pelas outras pessoas.
A minha dona enerva-se sempre com os comentários de pena e até de desdém que fazem sobre mim. E eu também, mas já não ligo. O que me interessa é o lar que encontrei e o carinho e amor que sentem por mim e me demonstram todos os dias.
E SIM, SOU CEGA.
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